José Luís Zêzere é geógrafo físico, Professor Catedrático do IGOT-ULisboa e Diretor do Centro de Estudos Geográficos. Na qualidade de investigador, integra o grupo RISKam – Avaliação e Gestão de Perigosidades e Risco Ambiental e, atualmente, coordena as equipa do CEG-IGOT nos projetos RiskCoast – Desenvolvimento de ferramentas para prevenir e gerir os riscos geológicos na costa ligados às alterações climáticas (financiado pelo Interreg Sudoe) e PLAAC-Arrábida – Planos Locais de Adaptação às Alterações Climáticas – Arrábida (financiado pelos EEA Grants).

P1. Professor Zêzere, tomou posse como Diretor do CEG no dia 4 de novembro de 2020. Qual o balanço que faz deste primeiro ano?

O balanço é um pouco agridoce. Por um lado, foi gratificante poder estimular e acompanhar o incremento do desempenho dos seis Grupos de Investigação do CEG, no seguimento das iniciativas da direção anterior, que se traduziu na quantidade e qualidade dos principais indicadores de produção, que incluem publicações, orientações de pós-graduação e projetos e prestação de serviços. As limitações decorrentes da pandemia constituem a maior frustração e manifestaram-se, essencialmente, a dois níveis: a forte restrição, e em alguns casos impossibilidade absoluta, de realização de trabalhos de campo, que resultou em atrasos no desenvolvimento de projetos de investigação e de teses de doutoramento e mestrado; e o cancelamento da maior parte das reuniões científicas internacionais em regime presencial, o que limitou a apresentação de comunicações e o debate e interação entre pares, sendo que se comprovou que, apesar de algumas virtudes das reuniões científicas on-line, estas não substituem o networking e a massa crítica que as reuniões presenciais propiciam.

No entanto, apesar das limitações, foi possível avançar com muitas iniciativas previstas no Programa de Ação da Direção do CEG para o triénio 2021-2023. Ao nível da organização, realço a autonomia da biblioteca e da fototeca, que desenvolveram agendas de atividade próprias, das quais destaco o concurso “Obras que contam: descobre um livro e dá-o a conhecer” e o lançamento do primeiro número dos “Cadernos da Fototeca”. A Finisterra, com elevada autonomia por parte da sua direção, continuou a afirmar-se como revista de geografia de referência em Portugal e no mundo ibero-americano. Os Grupos de Investigação tiveram a oportunidade de renovar o seu equipamento informático.

No que respeita à publicação internacional, estimulámos a publicação open access em revistas Q1 e Q2, contribuindo para o excelente posicionamento da Geografia da ULisboa no Ranking de Shangai. Na mesma linha, foram atribuídos os “Prémios Artigo Científico 2020” a jovens investigadores do CEG pelo mérito da atividade científica, expresso em trabalhos publicados em revistas científicas indexadas na Web of Science. Atribuímos, pela primeira vez, o Prémio Isabel André, valorizando as teses de doutoramento em Género e Geografia e contribuindo para o CEG +Igual, e dinamizámos um orçamento participativo (“Planta uma árvore, semeia a Geografia!), que está em implantação até março de 2022.

Por último, quero destacar a contratação de jovens bolseiros e investigadores de projetos. Entre junho e dezembro de 2021 foram realizados 17 contratos no âmbito de projetos e de prestações de serviços, numa injeção de “sangue novo” que é reveladora do enorme dinamismo dos nossos Grupos de Investigação.

P2. Explique um pouco da sua visão para o CEG e quais considera serem os maiores desafios para o ano 2022?

O CEG é a unidade de I&D do IGOT e a sinergia entre as duas instituições deve ser total. O IGOT afirma-se na Universidade de Lisboa como uma escola de investigação, o que faz aumentar a responsabilidade do CEG. Neste contexto, a direção do CEG articula com o IGOT as melhores soluções para o desempenho eficaz dos serviços de apoio à investigação, assim como para o bom funcionamento da biblioteca, mapoteca, fototeca, GeoModLab e EarthLab, no apoio prestado à investigação, ao ensino pós-graduado e à sociedade.

Desde a sua fundação em 1943, o CEG cresceu imenso e congrega hoje cerca de 160 investigadores, metade dos quais doutorados, e mais de 40 colaboradores. Com esta dimensão, é absolutamente vital fortalecer e apoiar os Grupos de Investigação do CEG (MIGRARE, MOPT, RISKAM, TERRITUR, ZEPHYRUS e ZOE), cuja autonomia científica é total. Paralelamente, cabe à direção do CEG tudo fazer para consolidar as condições estruturais que permitam aos investigadores a realização de investigação de excelência.

Adicionalmente, são objetivos estratégicos do CEG incrementar o impacto da produção científica dos nossos investigadores, elevar o perfil da internacionalização da investigação (nas publicações, projetos de investigação e formação avançada), dinamizar a disseminação e comunicação da ciência na sociedade, contribuindo para a maior visibilidade do CEG e o reconhecimento social do conhecimento geográfico, e estimular a investigação científica ancorada na perspetiva da sustentabilidade do território e da justiça espacial, no seio dos grupos de investigação e aproveitando as sinergias que resultam da sua articulação.

No quadro que acabei de descrever, os desafios para 2022 não são complicados de estabelecer. O caminho a trilhar não tem segredos nem atalhos e implica responsabilidade, rigor e exigência, combinando os objetivos individuais e coletivos dos nossos investigadores com a finalidade última de realização de investigação científica de excelência, medida e avaliada de acordo com os melhores padrões internacionais.

P3. Em fevereiro de 2021, foi aprovada a Candidatura a Laboratório Associado TERRA, sendo o CEG um dos cinco centros de investigação do consórcio. Qual o papel do CEG no TERRA e que avanços pode proporcionar para a sustentabilidade e conservação dos ecossistemas?

O Laboratório Associado TERRA (LA TERRA) – Laboratório para a Sustentabilidade do Uso da Terra e dos Serviços dos Ecossistemas resulta da congregação de cinco unidades de investigação da Universidade de Lisboa e da Universidade de Coimbra: Centro de Estudos Geográficos (IGOT-ULisboa), Centro de Estudos Florestais e Centro para a Ligação entre Agricultura, Alimentação e Ambiente (ambos do ISA-ULisboa), Instituto de Saúde Ambiental (Faculdade de Medicina-ULisboa) e Centro de Ecologia Funcional (Universidade de Coimbra).

O LA TERRA é uma estrutura colaborativa de investigação, transferência de conhecimento e desenvolvimento, que congrega mais de 400 investigadores doutorados, cuja missão consiste na criação de paisagens saudáveis e em sintonia com o bem-estar humano, aproximando o rural com o urbano. O LA TERRA tem como objetivo fornecer evidências científicas socio-ecológicas inovadoras, em apoio às melhores práticas de gestão e tomada de decisões políticas para o uso sustentável da terra e a bio circularidade dos produtos derivados, ao mesmo tempo em que atende às sociedades humanas que sustentam, e ao seu desenvolvimento.

O Contrato-Programa assinado com a FCT atribui o estatuto de Laboratório Associado por 10 anos e a direção do CEG considera esta iniciativa absolutamente estratégica para o desenvolvimento futuro do nosso centro de investigação, uma vez que ela fortalece as parcerias com outras unidades de I&D de referência no âmbito nacional, abre novas oportunidades na projeção internacional, contribui para as melhores práticas de gestão e a tomada de decisão política no uso sustentável do território, e estimula a disseminação da investigação fundamental e aplicada orientada para o apoio à decisão política.

O LA TERRA estrutura-se em 5 Linhas Temáticas: TL1 Capital Natural e Serviços Sustentáveis dos Ecossistemas; TL2 Agricultura, Silvicultura e Pesca Sustentáveis; TL3 Processamento de Produtos e Economia Circular; TL4 Sociedade e Saúde Ambiental; TL5 Sistemas Socio-ecológicos, Planeamento e Políticas.

É nossa expectativa, e objetivo, que os investigadores do CEG se envolvam em todas as Linhas Temáticas, sendo certo que é de esperar uma maior atividade no âmbito da TL5, que será coordenada por nós. Sem esgotar os temas elegíveis, esta linha contemplará o mapeamento e modelação de riscos e vulnerabilidades decorrentes de alterações climáticas; a avaliação de impactos de processos perigosos com forçador climático e avaliação do risco de desastres; a monitorização e avaliação de políticas públicas territoriais e políticas setoriais com relevância territorial para o desenvolvimento sustentável, que podem informar estratégias e o planeamento de cidades e regiões sustentáveis e resilientes.

O envolvimento do CEG no LA TERRA vai, naturalmente, acentuar a importância dos temas da sustentabilidade e do desenvolvimento sustentável dos territórios na nossa atividade científica; no entanto, o CEG continuará a manter a sua autonomia e identidade, bem como a capacidade para definir a sua agenda de investigação, em função do interesse coletivo e da estratégia dos Grupos de Investigação.

P4. Pode contar-nos um pouco sobre a sua trajetória pessoal e o que o levou a escolher a Geografia como área de estudo e profissão?

Já lá vai muito tempo!

A minha escolha pela Geografia foi muito determinada pela curiosidade em responder a duas questões: “onde?” e “porquê?”, conjugada com a influência de uma excelente professora de Geografia no ensino secundário, em Santiago do Cacém. A este respeito, aproveito para enaltecer o papel dos bons professores no ensino básico e secundário na identificação de vocações, contribuindo decisivamente para as melhores escolhas dos jovens estudantes na definição dos seus percursos académicos.

A licenciatura em Geografia correspondeu às minhas expectativas e a carreira académica começou em 1982, como monitor no acompanhamento de aulas práticas e saídas de campo das disciplinas de Geografia Física. Depois, veio o mestrado, o doutoramento e a agregação, e um percurso académico de 40 anos, caracterizados por uma aprendizagem permanente, com os meus mestres, colegas e estudantes.

O meu percurso académico e profissional foi influenciado por muitos mestres e colegas, mas devo destacar três: António de Brum Ferreira, Jorge Gaspar e Theo Van Asch.

O Professor António de Brum Ferreira foi o ‘Mestre’ que mais me influenciou, a quem devo, em larga medida, o interesse pela Geografia Física, pela Dinâmica de Vertentes, pelos Riscos e pelo trabalho de campo, mas também a habituação ao rigor e exigência na investigação científica.

O Professor Jorge Gaspar foi o principal responsável pelo meu envolvimento no Ordenamento do Território, pelo convite para integrar a equipa que realizou a primeira versão do Programa Nacional da Política de Ordenamento do Território, entre 2003 e 2005. A sua visão estratégica foi determinante para que os Riscos passassem a ser considerados, desde então, um pilar essencial dos modelos territoriais nos instrumentos de gestão territoriais em Portugal.

O Professor Theo Van Asch, da Universiteit Utrecht (Países Baixos) influenciou decisivamente o meu interesse pela modelação preditiva de processos perigosos, no espaço e no tempo. O seu entusiamo, inteligência e sagacidade são contagiantes e é um privilégio poder continuar a contar, ainda hoje, com a sua colaboração com o CEG.

P5. O que diria a um(a) jovem que está a considerar seguir a área da Geografia ou Planeamento e Gestão do Território no ensino superior?

O conselho que sempre dou aos jovens é que sigam as suas vocações, uma vez que acredito convictamente que fazemos melhor quando gostamos do que fazemos. Se a vocação for a Geografia ou o Planeamento e Gestão Territorial, tanto melhor!

A formação em Geografia permite construir uma visão de conjunto dos territórios, no cruzamento das ciências da terra e das ciências sociais. A Geografia garante o desenvolvimento de conhecimentos e instrumentos de análise integradores e indispensáveis para a formação de cidadãos conscientes, para a formulação de políticas públicas e para o ordenamento e gestão do território.

A formação em Planeamento e Gestão do Território responde à necessidade de formação de técnicos e profissionais qualificados nos domínios do urbanismo, planeamento, ordenamento e gestão do território, garantindo uma formação sólida em termos de conhecimentos, competências e atitudes sobre as relações sociedade-ambiente-território e as condições para uma intervenção fundamentada que assegure a justiça social e o desenvolvimento sustentável, em diferentes escalas geográficas e contextos territoriais.

A formação em Geografia e Planeamento e Gestão do Território oferecidas pelo IGOT têm uma enorme qualidade, beneficiando das sinergias com o CEG. Em larga maioria, os docentes do IGOT são investigadores do CEG, que transmitem nas suas aulas os métodos de análise e os resultados mais interessantes da sua atividade científica. Por outro lado, as infraestruturas de apoio à investigação do CEG, onde se destacam o GeoModLab e o EarthLab, estão também à disposição do ensino, embora este ponto seja mais notório no ensino pós-graduado.

P6. Na sua opinião, qual a contribuição da Geografia e do Planeamento e Ordenamento do Território para a compreensão do mundo atual?

A Geografia está “na moda”, sendo vista internacionalmente como uma disciplina dos tempos atuais. Por esta razão, está a aumentar de popularidade e o sucesso alarga-se ao Planeamento e Gestão do Território, que procuram implementar soluções para os problemas identificados pela análise geográfica.

Todos os grandes temas da atualidade, onde se incluem, por exemplo, a globalização, as alterações climáticas, a transição energética, a economia circular, os conflitos geopolíticos, as migrações, a sustentabilidade, estão plenos de Geografia, implicando interações complexas entre sistemas naturais e sociais.

A competência para articular teorias e conceitos das ciências exatas e das ciências sociais, mas também o domínio de métodos e técnicas de análise cada vez mais sofisticados, onde os sistemas de informação geográficos têm um papel central, colocam os geógrafos e os planeadores e gestores do território numa posição privilegiada para compreender o mundo atual e para contribuir ativamente para a resolução de problemas, a escalas variadas.

A importância da Geografia está bem clara na mensagem de Ano Novo 2022 do atual secretário-geral da União Geográfica Internacional, Barbaros Gönençgil: “O nosso mundo está a atravessar um período difícil em muitas questões, desde a pandemia a problemas económicos, das alterações climáticas às migrações, passando por problemas ambientais. Nestas condições difíceis, o mundo precisa de melhor conhecimento geográfico e dos geógrafos, mais do que nunca.”