Sérgio Cruz de Oliveira é geógrafo, professor auxiliar do IGOT-ULisboa e investigador do CEG, integrando o grupo de investigação RISKam.

É o investigador responsável do BeSafeSlide (2018-2022), um projeto coordenado pelo IGOT/CEG e financiado pela FCT, que visa desenvolver e implementar um protótipo de sistema de alerta para movimentos de vertente, de baixo custo, para melhorar a resiliência da comunidade e adaptação às mudanças ambientais.

É sobre esse projeto que nos fala nesta entrevista, fazendo ainda uma pequena reflexão sobre o seu percurso e a importância da geografia e do planeamento do território no mundo atual.

P1: Fale-nos um pouco do projeto BeSafeSlide. Qual o maior desafio que encontrou na sua implementação?

O Projeto BeSafeSlide (BSS) é o resultado de uma candidatura conjunta ao Concurso para Financiamento de Projetos de Investigação Científica e Desenvolvimento Tecnológico em Todos os Domínios Científicos – 2017, da Fundação para a Ciência e a Tecnologia. O projeto liderado pela equipa do CEG/IGOT/ULisboa reúne mais de 20 investigadores de diferentes instituições e áreas do conhecimento (ciências sociais e ciências naturais). Para além da equipa do CEG/IGOT, participam ainda equipas do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e do Instituto de Vulcanologia e Avaliação de Riscos da Universidade dos Açores.

O maior desafio deste projeto é desenvolver e implementar um protótipo de sistema de alerta de baixo custo e tecnologicamente acessível para movimentos de vertente, ajustado a diferentes contextos geológicos/geomorfológicos, cenários de alterações climáticas e de uso do solo. Ou seja, por um lado pretende-se que as alterações nos padrões da precipitação devido a mudanças climáticas sejam incorporadas e avaliadas no sistema de alerta para movimentos de vertente; por outro, que as mudanças previsíveis no uso do solo revelem a exposição e risco futuros.

P2: Qual a importância dos resultados encontrados para a gestão de riscos?

O Projeto BeSafeSlide ainda se encontra em curso. Os resultados obtidos até ao momento permitem-nos compreender um pouco melhor, para as diferentes áreas de estudo, quais as características físicas do território e processos que governam espacialmente a ocorrência dos diferentes tipos de movimentos de vertente, e quais os limiares de precipitação responsáveis pelo seu desencadeamento.

Uma vez que o protótipo de sistema de alerta que estamos a desenvolver é centrado nas pessoas, isto é, tem como foco a redução da exposição atual e futura (pessoas e bens críticos), redução da vulnerabilidade, e identificação de áreas críticas do ponto de vista da suscetibilidade e de exposição a movimentos de vertente, este é entendido como fundamental para uma efetiva adaptação e implementação de estratégias de gestão do risco.

P3: Pode explicar-nos como funciona o sistema de alerta e o impacto que tem na resiliência dos territórios mais vulneráveis.

Os movimentos de vertente têm sido nas últimas décadas um dos perigos naturais mais mortíferos quer em Portugal continental quer no Arquipélago dos Açores. O elevado número de mortos e pessoas afetadas, a frequente destruição de bens e a perturbação das atividades económicas e sociais devido à ocorrência de movimentos de vertente, justificam a implementação de um sistema de alerta regional.

O protótipo de sistema de alerta precoce para movimentos de vertente, que se encontra em desenvolvimento, inclui quatro componentes fundamentais: monitorização, previsão, definição de níveis de aviso/alerta, e procedimentos operacionais a adotar. O desenvolvimento do sistema de alerta prevê ainda a incorporação de mudanças globais, quer ajustadas a diferentes cenários de alterações climáticas de última geração (RCP2.6 e RCP8.5 do IPCC) e possíveis implicações na definição dos limiares de precipitação, quer ligadas a tendências futuras de exposição (uso do solo) como forma de construção de resiliência e capacidade adaptativa por parte das comunidades afetadas.

No essencial, um sistema de alerta precoce, como é o caso, é criado para avaliar a probabilidade de ocorrência de movimentos de vertente, através da monitorização/predição dos quantitativos de precipitação. No sistema de alerta, em desenvolvimento no Projeto BeSafeSlide, é efetuada a monitorização da precipitação em tempo real e são continuamente integradas no sistema de alerta previsões de precipitação de curto prazo (3/5 dias), de forma a antecipar as condições críticas (limiares) de precipitação responsáveis pela ocorrência de movimentos de vertente. Os registos de precipitação provenientes da monitorização em tempo real, através de estações meteorológicas instaladas nas diferentes áreas de estudo, e os registos de precipitação preditos pelos modelos de previsão meteorológica são ainda utilizados para alimentar os modelos de suscetibilidade dinâmicos de base física, de forma a melhorar a predição espacial destes processos, permitindo dessa forma a preparação antecipada das comunidades locais e uma possível redução de danos.

No projeto é dada particular atenção a dois tipos de eventos de instabilidade geomorfológica que serão permanentemente monitorizados dentro do sistema de alerta, em particular nas áreas de risco máximo: os eventos que possam implicar a evacuação da população devido à ocorrência generalizada de movimentos de vertente; e os que, não gerando necessidade de evacuação da população, geram diferentes níveis de perturbação territorial, e regionalmente, consequências com grande impacto socioeconómico.

A aplicação do sistema de alerta, em estreita articulação com os agentes locais e população, permitirá definir e validar os procedimentos de comunicação de aviso/alerta, avaliar a capacidade de resposta dos agentes e comunidades regionais/locais e populações afetadas e desenvolverá práticas de capacitação social, redução da vulnerabilidade e de mitigação dos riscos. O principal objetivo é proporcionar uma redução do número das pessoas afetadas, perdas económicas, diminuição de danos em infraestruturas críticas e diminuição da interrupção de serviços básicos de apoio às comunidades locais.

P4: Conte-nos um pouco sobre a sua trajetória pessoal e o que o levou a escolher a Geografia como área de estudo e profissão?

O meu despertar para a Geografia, sobretudo a sua componente mais física, surgiu em 1992. Na altura e após alguns anos de interregno a frequentar, como trabalhador-estudante, o 10.º ano do curso complementar liceal noturno na Escola Secundaria de Santa Maria, na Portela de Sintra.

Em 1995, decidi concorrer ao ensino superior, foi nesse ano que decidi que queria ser um geógrafo e deixar a serralharia civil (profissão que ainda viria a exercer durante a licenciatura e parte curricular do mestrado em 2001). As coisas nesse ano não correram como esperado, mas em 1996 entro no Curso de Geografia e Planeamento Regional, na variante de Geografia Física da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a minha primeira opção.

O Curso de Geografia foi uma aventura extraordinária, os colegas e amigos que fiz, a diversidade de matérias que de forma integrada me possibilitavam um maior conhecimento geográfico e do território, os professores, os trabalhos e mapas que elaborávamos pelos corredores da Faculdade de Letras, mas principalmente as saídas/trabalho de campo. Era sobretudo o conhecimento que ia adquirindo acerca da forma como os processos naturais moldavam o território e a forma como se relacionavam com a ocupação humana desse mesmo território que me motivavam… via geografia em todo o lado!

Em 2000, quando acabei a licenciatura, não arranjei logo emprego e decidi continuar a minha formação académica. Nesse ano não tinham aberto vagas para o mestrado em Geografia Física, e decidi inscrever-me no mestrado em Ciências e Engenharia da Terra (FCUL). Em 2002, ainda a frequentar o mestrado, ganhei a minha primeira bolsa de investigação, no projeto ALARM – Assessment of Landslide Risk and Mitigation in Mountain Areas. Um projeto europeu coordenado em Portugal pelo Centro de Estudos Geográficos. Nesse ano, passei a integrar, no Centro de Estudos Geográficos, a Área de Investigação em Geografia Física e Ambiente.

Em 2006, com a minha primeira bolsa da Fundação para a Ciência e Tecnologia, inicio o meu Doutoramento em Geografia e um percurso académico mais consistente ligado à investigação e ensino nas vertentes da Geografia Física, Geomorfologia Aplicada, Instabilidade de vertentes e Metodologias de avaliação da perigosidade natural, vulnerabilidade e risco. Ao Prof. José Luís Zêzere, meu orientador, e ao meu colega e amigo Ricardo Garcia, um agradecimento muito especial, por todos os ensinamentos e apoio neste percurso. Em meados de 2019 passo a integrar como investigador os quadros do Instituto de Geografia e Ordenamento do Território e uns meses depois, após concurso, como professor auxiliar.

P5: O que diria a um(a) jovem que está a considerar seguir a área da Geografia ou Planeamento e Gestão do Território no ensino superior?

Diria que o caracter interdisciplinar da Geografia se traduz numa das melhores opções para compreender o mundo atual e conhecer um território em constante evolução, quer no espaço, quer no tempo, nas suas múltiplas dimensões, naturais e humanas. Na vertente do planeamento e ordenamento do território, diria que o conhecimento geográfico constitui uma mais-valia para compreender as diferentes dinâmicas territoriais, e que este lhes possibilita a adquirir competências conducentes à resolução de problemas que surgem da necessidade de estruturação/intervenção, das diferentes regiões, de forma a garantir uma utilização e desenvolvimento sustentável desses territórios.

De uma forma geral, reforçaria ainda a importância que geógrafos e planeadores do território têm no mercado de trabalho, fruto da capacidade de adequação de diferentes métodos e técnicas às diferentes perspetivas e problemas geográficos ou de definição de estratégias e intervenções de desenvolvimento territorial e também fruto da sua capacidade para trabalhar em equipas multidisciplinares.

P6: Na sua opinião, qual a contribuição da Geografia e do Planeamento e Ordenamento do Território para a compreensão do mundo atual?

O conhecimento geográfico é fundamental para compreender as dinâmicas territoriais que se desenvolvem a diferentes escalas espaciais e temporais, entre elementos e processos naturais e humanos, e assim contribuir para a valorização territorial, planeamento e ordenamento do território face aos recursos e conflitos existentes. Este conhecimento e capacidade de análise prospetiva da relação complexa entre o funcionamento dos sistemas naturais e uso e ocupação do território adquire particular relevância num contexto de valorização territorial tendo em consideração o atual quadro de alterações climáticas e de objetivos definidos para um desenvolvimento sustentável em prol dos povos e do planeta.